Na cantina..

Há pormenores que escapam às pessoas. Há muitos meses sempre que almoço na cantina aqui do INETI observo um casal de velhotes que chega sempre religiosamente à mesma hora e religiosamente se senta nos mesmos lugares. Ambos reformados, antigos trabalhadores. Ela vem de braço dado nele, nota-se que deve ter tido um acidente vascular cerebral, tem um olhar vidrado, é mecânica, segue por onde o marido lhe diz para ir, não tem vontade própria. Ele tem uma cara entre o embaraçado e o orgulhoso, carrega o peso de cuidar da mulher (um boneco sem vontade que ele ama), muito arranjado e meticuloso. O ritual é sempre o mesmo, sentam-se, se o marido escolheu carne para ambos, ele pega no prato dela e parte-lhe o bife aos bocadinhos, se foi peixe, ele tira-lhe as espinhas e desfaz o peixe. Em seguida no fim da refeição bebem café, ele pede, ele põe o café à frente dela e ela mecanicamente bebe. Ela mecanicamente executa movimentos de sobrevivência, mas não questiona. Não sei o que chama à atenção neste quadro. A inversão dos papeis que a sociedade sempre me ensinou, que eu questiono mas não deixo de cair nestas pequenas armadilhas. A mulher aqui é o ser cuidado, não aquele que toma como missão cuidar dos outros.
9 Comments:
Nao sei o que te chamou à atenção mas a mim foi, sem dúvida alguma, o amor do senhor pela senhora.
Lembrei-me logo do filme "The notebook" e o amor e idolatração que aquele homem tinha por aquela mulher. Acho lindo! Só isso..Dá inveja, não achas?
É a primeira vez que escrevo aqui :) e gostei de ter começado por este post =)
beijinhos, Neia
sim, tens razão tb deve ter sido isso, o amor, a dedicação do marido a ela. Beijinhos gosto de ter por aqui! :)
É verdade, talvez o amor seja aquilo que nos salta aos olhos. A paisagem humana que descreves faz-nos pensar nisso. Mas... ora bem, e a história que se pode criar a partir desse quadro depende da nossa imaginação. Quem não garante que o bondoso velhinho mantém a mulher assim, à base de sedativos, para tê-la sempre cativa? Quem é que conhece, ou pode conhecer, a verdadeira história por trás desse amoroso casal de idade? Quantas vezes ela ficou a esperar por ele, quando jovem ainda, a desprezava para ficar com os amigos? Quantas vezes ela teve a sua inteligência menosprezada por ele? E quantas vezes ele a ameaçou de abandono e de banimento? Um história de filme poderia ser também "Boxing Helena" ou "A Cor Púrpura", e se fosse um livro sobre sentimentalidades conjugais bem poderia ser "Sonata a Kreutzer" - Mas, Pequenos Nadas, não quero que penses que tenho uma mente pervertida ou que eu seja um cínico: fiquemos pelo quadro enternecedor do amor, e fechemos os olhos para o resto que nos rodeia.
nós por mais que tentemos nunca nos conseguimos alhear ao que se passa à nossa volta, se bem que por vezes era muito cómodo e dava jeito. Adoro-te bjs!
Agito, Bar do Vítor... vamos à nossa movida hoje? "Te quiero Nena"
Gostei do post. Gosto de pessoas que reparam naquelas coisas em que ninguém repara. beijinhos da poeta_pedrada
onde estavas tu ontem??? Eu fiz la movida niño tu é que deves ter sido raptado por um urso qq...:) beijinhos
ah se o casal soubesse que lhes dediquei um post...:) sim o encanto reside nas coisas e nas pessoas em quem nínguem repara e nos seus defeitos e pecularidades. Beijinhos C&V
Fiquei comovida!
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